10 discos fundamentais de baianos

 

Por Paquito
Foto de Sora Maia

Fazer uma lista de dez discos fundamentais de baianos é uma sinuca de bico: a memória traz lembranças, trai convicções, mas uma certeza se coloca, a de que, na música popular, para haver um João Gilberto tem de haver um Roberto Silva, cantor carioca que era uma espécie de Emílio Santiago das antigas, por gravar discos em série – a série Descendo o Morro em quatro volumes –, não tinha repertório próprio, mas hoje é fundamental pra se entender o caminho que vai de Orlando Silva a João. O que a gente gosta também briga com o que julgamos representativo de um período, os discos quase saem das prateleiras, disputando no tapa pra ver quem fica de fora. Mas, não tem jeito: é a minha lista. Como sou baiano, músico, compositor e palpiteiro nesse tipo de riscado, aí vai, em ordem de lançamento.
Pra se ter ideia da presença da Bahia na música do país, o primeiro disco gravado profissionalmente no Brasil, de 1902, foi Isto É Bom, lundu de Xisto Bahia, um baiano do século XIX, cantado por um sujeito também de nome Baiano, que comento no meu artigo sobre pagode. Não é meu primeiro da lista por falta de espaço, mas não poderia deixar de citá-lo pelo pioneirismo.
O número 1 é de 1933, um 78 RPM cantado por Carlos Galhardo, com duas músicas do baiano Assis Valente: Pão de Açúcar e Boas Festas, a mais pungente e bela canção de Natal, que decreta a morte de Papai Noel. Todos sabem cantar: “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel/ bem assim, felicidade eu pensei que fosse uma brincadeira de papel”. Leveza e dor se equilibram nessa marchinha pop. Mas Assis também sabia ser espirituoso e alegre. Ele fez a primeira canção junina, Cai Cai Balão, além de Brasil Pandeiro, Camisa Listrada e Recenseamento. O segundo compositor mais gravado por Carmen Miranda, suicidou-se em 1958, e faria 100 anos neste 2011.
Caymmi e Seu Violão, de 1959, é o segundo. Caymmi já era um veterano e insistiu em fazer o disco das canções praieiras apenas com seu violão. A Lenda do Abaeté causa medo e admiração. Coqueiro de Itapuã, pedindo ao vento que jogue uma flor no colo da morena, é delicada e sensual. É Doce Morrer no Mar atinge o ideal de Caymmi: uma música que se assovia como uma Ciranda, Cirandinha vinda do povo. E, além de tudo, Caymmi e seu violão não representam o mar e a Bahia, eles são o mar e a Bahia. Eu adicionaria, como bônus, o 78 RPM com O Que É Que a Baiana Tem, cantada por Carmen Miranda e pelo próprio Caymmi, em 1938, música que lançou o compositor.
O terceiro é o primeiro de Bethânia, de 1965. Recém-chegada ao Rio, substituindo Nara Leão no espetáculo Opinião, Bethânia, ao ser contratada, ainda fez com que a RCA gravasse compactos dos iniciantes Caetano, Gil e Gal. Ela gravou, além do hit Carcará, Caetano, Batatinha e o que quis da sua memória afetiva. Intérprete madura, visceral e independente, Bethânia recria Noel Rosa, Caymmi da fase do samba urbano e nos presenteia com o dueto entre ela e Maria da Graça – Gal! – em Sol Negro, canção caymminiana de Caetano. E merece figurar como compositora, pois é parceira do irmão em Baby, a fundamental e posterior canção tropicalista.
Gil deve ser o mais exuberante e polivalente da lista, e seus discos apontam pra vários caminhos. Eu mencionaria o de 1969, pós-prisão e gêmeo do de Caetano, com os mesmos músicos e os arranjos de Duprat. Ainda citaria o Refavela, proto-axé music. Mas optei por 2222, pós-exílio, de 1972. O então macrobiótico Gil reencontra o seu passado nordestino, injeta rock no forró e forró no rock, e se esbalda no samba. Reinventa Jackson do Pandeiro, faz-se visionário em Expresso 2222, crítico em O Sonho Acabou e, como se não bastasse, apresenta um violão mágico, que, junto com o canto, chega perto da perfeição em Oriente.
João Gilberto ensinou os pós-tropicalistas Novos Baianos a olhar pra dentro de si mesmos. Morando em comunidade, tocando dia e noite, eles pariram o Acabou Chorare (1972), LP de samba orgânico com guitarras e cavaquinhos. A poética original de Galvão, o swing de Moraes - a dupla das canções - e ainda Baby, Paulinho, Pepeu e todos. Preta Pretinha, a primeira música que se aprende no violão. Moraes, carreira-solo, foi o primeiro cantor do Trio Elétrico Armandinho Dodô e Osmar, os reis da música de rua da Bahia. E tudo mudou. O oposto complementar do Acabou Chorare é Estudando o Samba (1976), de Tom Zé, esquecido e redescoberto por David Byrne pro Brasil e pro mundo. João Gilberto, de 1973, é o sexto. Podia ser Chega de Saudade, de 1959, que lançou a Bossa Nova, mas nesse seu “álbum branco” João se depura ainda mais: canto grave, preciso e simples, só com seu violão e a percussão de Sonny Carr, mais o canto de Miúcha em Isaura. Miniantologia da canção brasileira do seu coração, onde cabem o baião de Undiú, de letra mínima, do próprio João, e seus eleitos: Jobim, Caetano e Gil pré-tropicalistas, Alcyvando e Coqueijo, dois baianos, Herivelto, Geraldo Pereira e Ary Barroso - na instrumental Na Baixa do Sapateiro, conhecida nos EUA como Bahia. O melhor disco brasileiro.
O sétimo é o da figura emblemática e mito do rock brasileiro, Raul Seixas. No seu primeiro solo, Krig-ha, Bandolo! (1973), produtor que “aprendeu a comunicar”, Raul soube adequar loucura e sedução pop, a fórmula nada fácil do sucesso. Contém Ouro de Tolo, obra-prima que parodia A Montanha e Detalhes, ambas de Roberto e Erasmo, pra radiografar nosso vazio existencial. Ainda tem o samba de roda em Mosca na Sopa e o rock-baião de Al Capone. Eu ainda citaria o primeiro LP do Camisa de Vênus, que, pro bem e pro mal, provocou um cisma entre rock e axé, hoje superado pelo Retrofolia dos Retrofoguetes e o CD de sambas de Ronei Jorge & os Ladrões de Bicicleta.
De Caetano podia ser o disco-manifesto Tropicália, por conter Baby, com Gal, e o arranjo de Rogério Duprat. Podia ser o de 1969, pós-prisão, que contém Atrás do Trio Elétrico. Mas escolhi Jóia, de 1975, que não tem hits, mas é Caetano concentrado e relaxado pra criar pequenas joias com instrumentação econômica e a produção de Perinho Albuquerque. Tropicália cool é o menos discursivo e mais poeticamente radical de Caetano, um Araçá Azul enxuto, irmão de Cantar, melhor LP de Gal. Acrescentaria, como bônus, o compacto roqueiro de 68, com os Mutantes e Gil, ao vivo no estúdio, com plateia, e tem A Voz do Morto, Marcianita, Saudosismo e Baby.
No Verão de 1986, Gerônimo se apresentou numa convenção da gravadora Sony e, sentindo-se desdenhado pela plateia, improvisou uma cena-dialógo entre o cantor de trio elétrico e o cantor de um bloco afro no Carnaval da Bahia. O DJ Baby Santiago gravou, botou pra tocar na rádio Itaparica e a música estourou sem ter disco, que só saiu no ano seguinte. Além do refrão “Eu sou negão/meu coração é a Liberdade” é a música que divulgou a batida do samba-reggae, inventada por Neguinho do Samba no Olodum. Gerônimo tem outro hino, É d’Oxum, parceria com Vevé Calazans. Como Luiz Caldas, Gerônimo, dono de timbre incomum, é matriz da nova música baiana.
Multipercussionista, compositor original, artista do barulho, Brown já era consagrado quando fez Alfagamabetizado (1996), seu primeiro solo. Participou, com Luiz Caldas, da Acordes Verdes, que lançou Fricote, forneceu vários hits pro Carnaval e, além de gravado pelos baianos Chiclete, Daniela Mercury e afins, estava começando uma parceria com Marisa Monte. Autor de intuição musical impressionante, nesse disco, produzido por Wally Badarou, Arto Lindsay e por Brown, ele dosou o talento pra explodir colorido.

Novos Baianos - Mistério do Planeta Joao Gilberto - Insensatez Mais Uma Valsa, Mais Uma Saudade - Carlos Galhardo

 

          
     




Carlos Galhardo
1933


   




Caymmi e Seu Violão
1959


     
     


Maria Bethânia
1965

   


Gilberto Gil
2222
1972


     
     


Novos Baianos
Acabou Chorare
1972


   


João Gilberto
1973


     
     


Raul Seixas Krig-ha, Bandolo!
1973

   


Caetano Veloso
Jóia
1975


     
     


Gerônimo
Eu Sou Negão
1986

   


Carlinhos Brown
Alfagamabetizado
1996