O cara da banquinha de discos

 

 

COM A MARCA BIG BROSS

   
Ronei Jorge e os Ladrões
de Bicicleta

A Dois
     
Retrofoguetes

Ativar Retrofoguetes!
     

   
Brinde

Sabe Aquela Coragem?
     
Soma
Eu, o Alien
     
     
Theatro de Séraphin
     
Vendo 147
Godofredo
     
     
Pastel de miolos
Da escravidão ao Salário Mínimo
     
Pessoas Invisíveis
Fora do Eixo
     
     
The Honkers
Between The Devil And The Deep Blue Sea
     
Versus2
Apresento meus Amigos
     

Por Lucas Cunha
Fotos de Florian Boccia

Velho conhecido da cena baiana, o produtor Big Brother é o cara que leva nossos discos para fora

O produtor cultural Rogério Brito, 39 anos, ainda acredita na banquinha de discos. Foi por meio dela que muita gente em Salvador começou a conhecer sons alternativos de outras partes do Brasil. E é ainda por sua banquinha que muita gente de fora descobre outros sons da Bahia.
Poucos, porém, neste meio, o reconhecem pelo nome de batismo. Ele é Big Brother, o fundador do selo Big Bross Records, responsável por lançar, nos seus mais de dez anos de atividade, os primeiros trabalhos de alguns dos mais importantes grupos alternativos recentes de Salvador como Retrofoguetes e Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicleta.
Big, que trocou o Brother por Bross para não chocar com o reality show homônimo, começou a rodar o Brasil, no meio dos anos 1990, com disquinhos de bandas baianas na mochila em festivais como o Abril Pro Rock (Recife) e o Junta Tribo (Campinas). “Representar as bandas daqui era uma forma de circular nos bastidores”, conta.
A partir dessas viagens, percebeu que trazer bandas de fora para tocar em Salvador não era tão difícil assim. Ele esteve envolvido na vinda de muitos grupos, como Mundo Livre S.A, Eddie, Charlie Brown Jr. e Planet Hemp, para ficar apenas nos mais famosos. Sem contar sua participação na produção do Garage Rock, ao lado de Ruy Mascarenhas, festival que teve 10 edições ao todo, em Salvador.
Informalmente, os discos baianos da sua banquinha levavam uma espécie de ‘selo de garantia’ de Big, que conseguia fazer artistas locais chegarem mais longe. A cantora Pitty já declarou que foi Big o responsável por lhe apresentar para Rafael Ramos, ex-baterista da banda Baba Cósmica, que anos depois contrataria a baiana para lançar seu primeiro disco, Admirável Chip Novo, pela gravadora Deckdisc.
Dos anos desse escambo musical veio a ideia de transformar aquela distribuidora amadora em um selo. Nasceu a Big Brother Records (hoje, Big Bross Records). O seu primeiro lançamento foi uma fita cassete da banda punk Pastel de Miolos, em 1999. “Eu me formei na cena punk e metal de Salvador, então, lançar os caras, que são referência no punk de Salvador, era uma honra para mim”, diz ele. Mas o selo só ganhou corpo em 2002, com o lançamento quase simultâneo dos EPs das bandas Retrofoguetes (Protótipo de Demonstração nº1), Brinde e Soma (Eu, o Alien).
Com o Retrofoguetes, a relação é de outros tempos. Big já era parceiro dos músicos desde a antiga banda dos integrantes, o seminal grupo de psychobilly The Dead Billies, que marcou história na música alternativa baiana entre a década de 90 e o início dos anos 2000. “Comecei a comentar nas listas, como a Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin), que a Dead Billies agora era Retrofoguetes. Quando receberam o primeiro convite de fora de Salvador para tocar, viram que a coisa podia dar certo. Eu conheço a cena de surf music mundial, eles são desproporcionais para o mundo. A última banda tão inovadora quanto eles foi o Man Or Astro-man?”, analisa.
Já o lançamento da Brinde e da Soma, dois grupos muito influenciados pelo britpop dos anos 90, aconteceu por Big ver nas duas bandas qualidade igual ou maior daquelas que assistia nos festivais pelo Brasil. “A Brinde era mod e Beatles pra caralho, lembrava as bandas do Sul, como Walverdes. Já a Soma tinha essa coisa Radiohead. E as duas se produziam muito bem. É aí que eu entro. Se percebesse que a banda trabalhava e não esperava que o selo fosse resolver todos os problemas da vida dela, então queria ajudá-los a lançar o CD, colocando minha marca no disquinho. Toda vez que viajasse, levava alguns comigo”, explica.
A partir desse triplo lançamento, o selo despontou. Big não tem o número certo, mas contabiliza aproximadamente 30 lançamentos pelo Big Bross Records. O campeão de vendas é o EP A Dois, de Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicletas, com mais de dois mil discos vendidos. “Já conhecia Ronei de seus outros grupos, como o Saci Tric, e ele me disse que estava gravando coisa nova. Então, disse: ‘quero lançar’. E ele respondeu: ‘mas você ainda nem ouviu!’. Só perguntei com quem ele estava gravando e pronto. Bom que a banda deu muito certo”, relembra.
A banquinha de Big Bross começava então a ficar recheada de bandas baianas com o selo Big Bross. Vieram outros lançamentos: The Honkers, Theatro de Séraphin, Rewinders, Dever de Classe, Theo e os Irmãos da Bailarina, Lou e Tritor.
“A Honkers já circulava e tinha essa coisa garage anos 60 que eu gostava muito. A Rewinders foi uma banda que tinha um grande potencial, mas que não correu atrás. Outra que tinha tudo para dar certo era a Tritor. Mas era mais um projeto do que uma banda. Já a Lou eu achava que era uma boa banda e tinha uma questão estética que iria funcionar. A Dever de Classe me deu a honra de lançar uma banda punk que está há tanto tempo em atividade. E a Theatro de Séraphin tem o Marcos Rodrigues (baixista), que era da Via Sacra, uma banda punk daqui da Bahia, ainda o Artur Ribeiro, ex-vocal da Treblinka e Cravo Negro. Ele é mestre. No caso da Theo e Os Irmãos da Bailarina, era uma incógnita. Era uma banda que pouca gente entendia o som, não dava pra saber onde eles iam chegar, qual era o público deles, mas eu gostava muito”, analisa.
Entre os lançamentos mais recentes do Big Bross estão duas bandas de rock instrumental, a Vendo 147 e a Tentrio, além do grupo de hip hop Versus2. Além do selo, Big toca, ao lado da produtora Cássia Cardoso, no coletivo Quina Cultural, que serve como um ponto de apoio do Circuito Fora do Eixo, uma tentativa de estímulo na circulação de artistas, atualmente com produtores de quase todos os estados brasileiros envolvidos nessa rede de contatos.
“Boto muita fé que daqui a uns cinco anos o Fora do Eixo vai estar muito mais estruturado do que hoje”, almeja. Enquanto isso, Big vai se mantendo na sua lógica que chama de “pinga pinga”, com diversas atividades em paralelo. “Faço minhas festas com discotecagem porque eu ganho e me divirto. Tem também o Big Bands, que está inscrito em diversos editais para o ano que vem, além dos shows que eu vou organizando”, explica.
Mas, apesar de tudo isso, a Big Bross Records ainda tem seu espaço cativo no seu sonho, já que ele aposta na duração do CD físico. “Ninguém sabe o que vai acontecer com a música daqui para frente, mas acho que o formato físico nunca vai morrer. O diferencial será sempre em agregar alguma coisa. Hoje em dia, pelo Fora do Eixo, meus discos estão em Roraima, no Amapá. E ainda tem gente que acha que o CD morreu”, pondera. Pelo visto, Big ainda vai rodar pelo Brasil com sua mochila e sua banquinha de discos por muito tempo.

The Dead Billies - I Can't Help Myself From Gettin' It On Vidinha - Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta HELL - VENDO 147

   

“Ninguém sabe o que vai acontecer com a música daqui para frente, mas acho que o formato físico nunca vai morrer. O diferencial será sempre em
agregar alguma coisa (...)

 

Indicações de sons por Rogério Big Bross:
Imperial Swing Orchestra – Imperial Swing Orchestra.
Hot – Squirrel Nut Zippers
Heartfelt Sessions – The Dead Billies