No rastro dos blocos afros

Por Ângelo Flávio
Fotos de Jamile Vasconcelos

Agremiações se apresentam no Carnaval como uma resistência que produz cultura brasileira através da memória afrodialógica

A década de 70 foi época de grandes transformações culturais, políticas e comportamentais em várias partes do mundo. A população negra de Salvador, influenciada pelo movimento Black Power, reinventava novas formas de afirmar sua negritude. Os terreiros de candomblé, embora perseguidos pela intolerância religiosa vigente, eram uma dessas fontes. Traço fortemente característico nos blocos afros.
Salvador já tinha uma grande participação negra em escolas de samba, afoxés e blocos de índio. Mas foi em 1974 que surgiu o primeiro bloco afro fundado na Bahia, o Ilê Aiyê, nascido no Curuzu, Liberdade. Pela primeira vez, uma agremiação carnavalesca expressava claramente nas letras de suas músicas o protesto contra a discriminação racial, ao mesmo tempo em que valorizava enfaticamente a estética, a cultura e a história africana. Assim como o Ilê Aiyê, emergem na mesma década outros blocos afros, tais como o Mutuê (1975), o Olodum e o Malê Debalê (1979), todos formados por moradores de bairros populares como Liberdade, Itapuã e Pelourinho.
“Somos crioulos doidos
Somos bem legal
Temos cabelo duro
Somos black pau”
(música de Paulinho Camafeu que retrata a influência do movimento Black Power nos blocos afros, cantada na primeira edição do Ilê Aiyê, 1974)
As atividades dos blocos afros não se limitavam aos dias de Carnaval, pois os ensaios e eventos culturais e políticos diversos movimentavam seus integrantes e simpatizantes ao longo do ano. Muitos desses blocos, assim como outros que surgiram nas décadas de 80 e 90, continuam ativos hoje, tendo se desdobrado em instituições fortemente voltadas para a educação, tanto convencional como artística, além, óbvio, de marcarem sua presença anualmente no Carnaval.
Durante a década de 90 surgiram mais de 20 agremiações carnavalescas criadas por jovens negros das periferias da cidade, que tinham o intuito de reproduzir, através de instrumentos percussivos, a música africana, numa junção do samba com a música sacra afro-brasileira. O Tempero de Negro (21/6/1990) é o único bloco de Carnaval que tem a cuíca como instrumento na banda, o que tem atraído muitos músicos. A Didá (13/12/1993) é um bloco de formação exclusivamente feminina e esse recorte de gênero na sua primeira aparição pública causou estranhamento e curiosidade no público, pois mulheres fazendo samba-reggae era uma novidade. O grupo inovava com um conjunto feminino que tocava tambores sem abrir mão da sua natureza. Sem sombra de dúvida, a Didá incorpora a simbologia das candaces, afirmando a emancipação das mulheres em tempos ainda machistas. O Cortejo Afro (2/7/1998) eclode no cenário carnavalesco da cidade com certo impacto imagético e musical. O bloco até hoje vem apresentando uma mistura de ritmos africanos mesclados às batidas eletrônicas e ao pop, além de também apresentar cenários inovadores para a alegoria carnavalesca da cidade. O Cortejo se afirma pela ousadia de uma composição visual moderna, arrojada, em contraste com a musicalidade de tradição afro.
O Bloco Afro Okanbí, fundado no Engenho Velho de Brotas (1982), por Jorjão Bafafé, é um bloco que se refez na cidade rompendo com a tradição estrutural da sua musicalidade afro dos anos 80 e 90, propondo um diálogo com outras manifestações musicais, como o hip hop, por exemplo. Se, em 1983, o Okanbí desfilou na cidade com uma musicalidade e indumentária inspirada nos terreiros afro-brasileiros, cujo tema era Ômo Obá Okanbi, quase 30 anos depois, o grupo ganha fôlego na avenida propondo à cidade um novo formato alegórico e musical em diálogo com tradições de matriz africana. A banda percussiva, por exemplo, formada por cerca de 150 percussionistas, lança um ritmo que funde o toque sagrado do ijexá com musicalidade cubana, incorporando novas linguagens que misturam samplers e batidas eletrônicas ao som de berimbaus, instrumentos percussivos e cânticos do candomblé demarcados com o grupo de rap baiano Opanijé e a cantora brasiliense Ellen Oléria.
Outros blocos afros, no decorrer do século XXI, foram surgindo, como o Furação Alegria (2000), A Mulherada (2001), Relíquias Africanas (2002) e o Kizumba (2004), que desenvolve um repertório calcado na cultura afro-brasileira, fundindo ritmos como maracatu, funk, hip hop e fazendo releituras de temas de sambas de roda, chulas, baião e do candomblé jeje-nagô.
Destaquemos um dos blocos afros mais jovens da cidade, o Bankoma (2000), nascido no Terreiro São Jorge Filho da Gomeia, em Portão. A entidade resgata um elo forte com a tradição cultural herdada da cultura afro, através do candomblé. São mais de 350 terreiros que participam do desfile. A juventude que compõe a ala de dança traz frescor para os olhos e para a alma - todos param para ver. Seja na dança, na música e nos elementos de indumentária, a tradição banto se preserva através dos mecanismos artísticos, cuja proposta musical afro-pop e a ala de dança afrocontemporânea revelam o orgulho dos seus membros que desfilam esbanjando beleza.
Os blocos afros da Bahia se apresentam no Carnaval de Salvador como uma cultura resistente que transporta na musicalidade, corporeidade, festividade e ludicidade uma memória afrodialógica, produzindo cultura brasileira.

Indicações sonoras:
Para Embelezar a Noite - Dão
Amarelo - Juliana Ribeiro
Em Primeira Mão - Simples Rap’ortagem
Escutando Magary - Magary Lord