Todo mundo quer um samba

Por Paquito
ilustração de Jamile Vasconcelos

O pagode baiano não economiza nada, é um esbanjar de sensualidade, festejo e força vital

Todo mundo quer um samba pra si: samba-choro, samba-canção, samba-rock, sambão, sambinha (como eram chamados, despretensiosamente, aqueles da bossa-nova), samba-chula, e até o samba-reggae – que, no entanto, se aproxima mais da marcha - pois o nome ‘samba’ agrega valor. Mesmo que o nosso cantor mais popular dos últimos 40 anos, Roberto Carlos, não seja um cantor de sambas, é com o samba que nos reconhecemos como nação.
O samba, então, fica tão imenso que pesa. Solene, vira coisa séria e deixa de ser festejo, ou melhor, pode ser festejo se for com verniz de respeitabilidade. E se esquece justamente o seu motivo maior de existência: a molequeira, a curtição. Talvez por isso, na Bahia, se chame pagode à forma que resgata o samba como festejo apenas, sem transcendências heroicas.
Mas pagode é samba, mais do que samba-reggae, por exemplo. Estão lá, nas gravações e performances, as sequências harmônicas características e o ritmo, repetitivos. Repetitivos feito o blues, o rock’n’roll primitivo e o samba de roda que, no entanto, são respeitáveis, longevos, mas tiveram um dia cara de bandido. São repetitivos sim, e o que lhes dá especificidade e beleza é quando se adequa a redundância à expressividade.
O rock e o que se reconhece como MPB levaram a música popular a uma sofisticação impressionante: a gente se acostumou com a imprevisibilidade das gravações dos Beatles e das canções de Tom Jobim, mas os Beatles e Jobim sabiam de onde vinha a música que cultivaram. O nascedouro da música popular está no simples, no bruto.
Mas o pagode baiano, por ser politicamente incorreto e sexualmente claro, ainda tem cara de bandido. Ele vem de baixo e não teme ser comercial, ele concede, tudo dá e tudo pede, não economiza nada, é um esbanjar de sensualidade, libido, força vital: basta ver os corpos em praias da Bahia, se mostrando e se descobrindo em remelexos, quando toca um pagode naqueles sistemas de som de automóveis. O conjunto de corpos, volume alto mais cerveja e sal pode ser desarmonioso, excessivo, mas uma força se impõe.
Já foi assim com a axé-music. Quando Luiz Caldas estourou com Fricote era execrado como música de mau gosto, e talvez fosse mesmo. Bom gosto pode emperrar. Hoje, sem mais tanto sucesso popular, Luiz virou alvo de respeito e é axé-roots. Já ouvi Margareth Menezes falar contra a sexualização do pagode, e Gerônimo, com muito humor, dizer que os shows de pagode, no futuro, serão de sexo explícito.
O próprio Gerônimo, sabedor, me disse que o pagode baiano é o lundu atualizado. A nova onda começou com É o Tchan, mas, num passado remoto, o primeiro disco gravado profissionalmente no Brasil, de 1902, foi Isto É Bom, lundu de Xisto Bahia - um baiano do século XIX -, cantado por um sujeito chamado Baiano, nascido em Santo Amaro. A música, acompanhada por um piano, tem o espírito divertido dos pagodes atuais: ”levanta a saia, mulata/ não deixe a renda arrastar/ que a renda custa dinheiro/ dinheiro custa ganhar”. Pra não deixar dúvida da jocosidade, o refrão é “isto é bom que dói”, e o cantor, entre as estrofes, diz coisas como: “ouça o Bento, buraco véio tem cobra dentro”.
Todo mundo quer um samba pra si, mas o samba não está nem aí. Aliás, o samba está em todo lugar, onisciente, onipresente samba, por isso ele pode muito bem ser também vagabundo, chulo, curtidor, pois é da vida. O pagode é sinal de saúde do samba, mostra que ele não morreu, que dá sinais de vida ao renascer das tentativas de encastelamento.
O samba é como passarinho, é de quem pegar primeiro, disse o compositor Sinhô ao justificar, a Heitor dos Prazeres, ter afanado duas melodias de Heitor: não sabia de quem eram, usou-as pra Gosto que me Enrosco e Ora, Vejam Só, dois clássicos. Só faltou dizer que, depois que se pega o samba, ele dá uma volta, faz que não vai, mas abre os braços e levanta voo vertiginoso.
Você pode não gostar de pagode, ou não reconhecer que gosta, mas ele faz a diferença, como diz aquele samba de Assis Valente: “É feio, mas é bom, deixa quem quiser falar/ o batuque na favela terminou com tiroteio/ o samba que tem barulho, eu acho bom, mas acho feio/ a mulata quando samba, de alegria fico cheio/ a mulata se requebra, eu acho bom, mas acho feio”.
É feio mas é bom, deixa quem quiser falar.

Assis Valente 100 anos - Assis Valente
Prato e Faca - Cristina Buarque
Meio Século de Música Sertaneja - Volume 1 - Vários artistas