Nem tão diferentes assim

 

“(...) Num programa como
o cassino do chacrinha, pô, era maravilhoso. Ele mesmo fazia questão e dizia: ‘podem chamar quem vocês quiserem aí, mas luiz e magal têm que vir...’”

Por: Ronei Jorge.

De onde menos se espera, caminhos se encontram. Foi esse o mote desse papo com Luiz Caldas e Vandex. Começo a apresentação pelo segundo, obviamente menos conhecido. Evandro Botti foi baixista da Úteros em Fúria, uma das bandas referência do rock baiano da década de 90, quando o gênero ainda brigava com o axé business. A Úteros acabou durando só o tempo de um disco, mas continuou marcante. Apelei para um hiperbólico ‘obviamente menos conhecido’ para acentuar o quão famoso é Luiz Caldas. Talvez, hoje, não se reconheça isso, inclusive os fãs da axé music, gênero que Luiz foi o primeiro representante. Mas, quem tem mais de 30 anos sabe. Luiz Caldas fez muito sucesso: discos de ouro e platina, habitué do programa do Chacrinha e música em abertura de novela. Ou seja, o criador do axé era uma estrela pop na década de 80, período do desabrochar do BRock. Nossa conversa caminha pelas origens de cada artista e, vejam só, descobre o quão ligados eles são. Das bandas de baile de Caldas, que lhe deram a pegada pop, às gravações da Úteros em Fúria, feitas durante um Carnaval. Esses dois gêneros, outrora tão antagônicos, ora se cruzam, ora se contrariam. Tá confuso? Então, tente entender um pouco mais a seguir. Afinal, tudo faz sentido quando o negócio é música.

Ronei Jorge – Quando você fez sucesso, nos anos 80, o rock estava em evidência e você era uma figura diferente. Como era a abordagem da mídia em relação a você, Luiz?
Luiz Caldas - Eu era um diferencial justamente por estar trazendo um estilo diferente, que ganhou o nome de axé music. Mas os colegas também curtiam muito, porque quando tem um trabalho forte e coerente não tem uma disputa. Então, em nenhum momento eu fui rechaçado.

RJ- Não era uma coisa do tipo você é de uma turma e eu sou da outra...
LC - Pelo contrário.

RJ - A gente via que existia, às vezes, um discurso marcado, pautado pelo rock inglês e americano. Então, eu queria saber, você se sentia, assim, menos...
LC - Importante?

RJ - Não, porque importante você era.
Vandex - Pertencente?

RJ - Você sentia que a imprensa não estava preparada pra lidar com seu trabalho?
LC - Eu era, assim, um produto bizarro em comparação ao que era apresentado no Chacrinha, de forma geral. As minhas roupas, a androginia, a coisa de andar descalço, brincos grandes... Ou seja, eu levei uma música nova, uma atitude nova, com interação entre o público e o artista no trio. Essa coisa da coreografia veio comigo. Aquela coisa toda, mesmo que fosse uma bobagem, num programa como o Cassino do Chacrinha, pô, era maravilhoso. Ele mesmo fazia questão e dizia: “Podem chamar quem vocês quiserem aí, mas Luiz e Magal têm que vir...”. Então, claro que a imprensa não tinha nenhum preparo pra isso. Eu fazia parte, naquele momento, de uma grande festa, com o nascimento de grupos que hoje estão aí com 30 anos. Nunca vi nenhum problema nisso, pelo contrario. Acho que foi até...

RJ - Agregador...
LC - Isso, agregador.

RJ - Vandex, então eu vou lhe fazer a mesma pergunta. Na sua época, a Úteros fez um disco, tinha clipe na MTV, num período em que a música baiana estava em ascensão. Como era fazer rock em Salvador?
V- Acho que a coisa foi mudando muito, né? A gente começou a banda no final dos anos 80 e tinha que se colocar, até em termos de som, porque a nossa proposta devia ser pensada de acordo com o próprio rock’n’roll que rolava na época, o pós-punk... Então, era toda uma virada de padrão sonoro que estava se estabelecendo e a gente tinha que propor alguma coisa. Começou a moda de cantar em inglês... A gente na Bahia tinha uma coisa especial porque a indústria da axé permitiu a criação de estúdios como o WR, que possibilitou a gravação do nosso primeiro disco. A Úteros gravou o disco durante o Carnaval porque o estúdio estava vazio. A gente estava no melhor estúdio, com tudo disponível pra a gente tirar um som de rock. Foi graças a essa estrutura que a gente conseguiu gravar o nosso primeiro disco e eu acho que hoje também a gente vê que a axé tem uma estrutura de produção que pode ser utilizada por qualquer som.
LC - Isso que Vandex falou é muito importante, porque a axé music cresceu muito na parte comercial depois dos anos 90, quando foi deixado para trás qualquer rastro de criação, entendeu? E aí agregou o quê? Roupas, telões no fundo do palco... Porque todos os shows, de certa forma, estão calcados em covers, vamos dizer, de artistas que deram certo e que nem sempre são tão bons assim pra serem imitados, a meu ver. E justamente nesse momento o crescimento do rock foi fundamental também. Mas você via o rock sempre pelas lacunas, porque o monstro da cultura da axé music trabalhava em detrimento de outros estilos. Chegavam numa rádio e pagavam R$ 50 mil pra poder tocar o disco deles e pagavam mais R$ 40 mil para não tocar determinado disco...

RJ - Como é que você via o rock? Se é que você via...
LC – Via, sim. Agora, eu não tinha como encostar tanto no rock’n’roll por questões de gravadora. Isso foi afastando qualquer ligação, porque o cara não podia chegar e se ‘contaminar’, vamos dizer assim, nem o rock com a música de trio elétrico e nem o trio elétrico podia se contaminar com o rock, na visão dos donos de gravadora, entendeu? Muito doido, porque existe coisa mais rock’n’roll do que Armandinho tocando guitarra baiana?

RJ - Amigos meus mais velhos dizem que, na época, o rock ao vivo eram os trios, era ver Armandinho, Acordes Verdes... Fazendo o nosso mea culpa, né, Vandex? A gente também se afastou, porque o nosso grito de liberdade era meio que: “Porra, se ninguém quer a gente, então também a gente é contra...”
V - Eu acho que é isso... Eu queria perguntar pra Luiz justamente como é que se deu esse início, porque quando a gente vê, em termos de som, a coisa não tem muita diferença. Quando o cara começa a tocar, as influências regionais vêm, as influências estrangeiras vêm e o cara não fica tomando consciência do que é rock, do que é axé... Já fui dono de estúdio de ensaio, já vi o cara que vai fazer um pagode depois tocar Nirvana na mesma pegada. Como foi essa transição aí, das bandas de baile do final dos anos 70, que também faziam axé? Hoje em dia todo mundo virou axé.
LC - Veja bem, eu comecei tocando em baile com 7 anos de idade. Já tocava aqueles artistas todos da Motown e do rock...
V - Pra fazer baile no interior da Bahia...
LC - A gente tocava tudo, porque o baile começava às 10h da noite e ia até as 5h da manhã, colando uma música na outra. Porque não podia parar com o povo dançando, né? Aí, a gente misturava tudo mesmo. Começava com Creedence e terminava com Agepê. Tinha que tocar no mesmo gás. Então, a gente não tinha tempo para levantar bandeira de nada, a bandeira era só a da música, saca? Para responder o que você perguntou, essa mudança veio, justamente, quando eu cheguei no trio elétrico, porque só se tocava frevo, que é da cultura pernambucana. E, por mais diferente que seja o nosso frevo e por mais genialidade da família Macêdo e de Moraes Moreira, não era a cara da Bahia.

RJ - E isso acabou sendo a sua marca, né, Luiz? A gente ouve a coisa da tradição do trio, mas vê que você tem influência da musica pop...
LC - O disco Magia tem salsa, merengue, rock, samba. É uma mistura muito grande. Porque eu não faço distinção musical, eu só vejo o seguinte: tem dois tipos de música, a bonita e a feia.

RJ - Vem cá, Vandex, Apu (guitarrista da Úteros em Fúria) casou com Sarajane, a primeira popstar feminina do axé... Por conta dela, vocês começaram a conhecer coisas também de outro universo?
V – A música se dá de uma maneira orgânica e foi isso justamente que aconteceu com Apu e Sara. Apesar de pertencerem a gêneros musicais diferentes, eles estavam na Bahia fazendo som e se conheceram... Sara acabou ajudando muito a Úteros em Fúria. Acho que é isso, na prática, todo mundo quer fazer música. Mas, na verdade, é a política da música baiana que faz essas divisões, esse rótulos. Agora, se a gente quer fazer um som diferente, tem que aproveitar o que tem de bom de cada um e fazer com que a coisa apareça.

RJ - Você lançou dez discos de estilos diferentes em um ano, Luiz. Vai fazer um show segmentado ou é um show que você pensa em misturar tudo?
LC - Na realidade, são 280 músicas, tudo inédito. Mas isso não quer dizer que eu vá tentar condensar tudo isso em um espetáculo. Isso não existe. Fiz um caleidoscópio musical como se fosse um registro de vários estilos.

RJ - Vou perguntar para os dois: da música baiana, em geral, o que vocês têm ouvido que destacariam?
LC - Olha, infelizmente, no momento, eu não estou escutando praticamente nada. Fui convidado para participar de um disco tributo ao Nirvana e fiquei trabalhando num arranjo diferente. Quando estou compondo não posso correr o risco de estar ouvindo muito porque acabo me influenciando.

RJ - Vandex?
V - Têm várias bandas que eu curto. Eu fiz um show com a galera da Suinga, que trabalha muito o ijexá e o ijexá tem tudo a ver com o rock’n’roll.

RJ - Luiz, achei muito boa sua apresentação no programa Chico & Caetano... Caetano faz uma apresentação enorme falando de você, muito bacana...
LC - No início de minha carreira nacional, Caetano Veloso me apresentou no Fantástico também e sempre com o maior carinho. Ele sempre foi assim, uma pessoa muito carinhosa com a música em geral, por isso que eu gosto muito dele.

RJ - Voltando à questão dos anos 80. Acho que já vi Lulu Santos uma vez, se não me engano, dizer: “Esse pessoal tá perdendo tempo com rock inglês, Luiz Caldas está aí, é o nosso Prince”. Como é a sua relação com essa música que você fazia no passado?
LC – Tudo vai e volta, ninguém fica parado num lugar só. É, por exemplo, a resposta que eu poderia dar até em uma pergunta que você fez antes sobre os anos 80. Eu andava em todos os meios musicais, não tinha nenhum grilo. Pô, Caetano e Chico eram a nata da MPB condensada e eu estava ali com eles num dia muito bom, que tinha Rita Lee, Bethânia. Foi maravilhoso, eu, ali, guri, no meio de monstros sagrados que me receberam da melhor forma possível.

RJ - Você já ouviu a Úteros em Fúria?
LC - Lógico. Para o rock daqui da Bahia eu tiro o chapéu mesmo, é muito mais interessante do que o rock paulista.

RJ – Vandex, o que você indicaria pra Luiz ouvir?
V - Eu indicaria a Suinga...

RJ - Quando terminou a Úteros, você sentiu essa abertura musical também, Vandex? De, tipo, “agora eu não sou mais um cara do hard rock?”.
V - É, a Úteros fechava mais, né? Sinto que a gente também perdeu um pouco, por culpa nossa, a virada dos anos 90, que foi justamente por bater muito na tecla de cantar em inglês. Eu acho de ‘fuder’ cantar em inglês, mas acho que a gente pagou um preço por isso. A gente teve a oportunidade de ter continuado, ter incorporado outras coisas... Bandas contemporâneas, como Chico Science e Raimundos, souberam dar o pulo pra poder entrar no mercado. E a Úteros ficou muito batendo na coisa do inglês e ficou estranho porque o mercado brasileiro não queria isso.

RJ – Hoje, as músicas de Carnaval perderam o groove, né?
LC - Com exceções, é um pop malfeito. Eu vejo assim, infelizmente. Até porque os grandes músicos migraram pra axé music e agora pro pagode. Porque o cara precisa pagar a conta. A Coelba não que saber se você toca rock ou axé. Corta do mesmo jeito.


VANDEX - VENHA MAMÃE
LUIZ CALDAS - TIETA

Indicações sonoras:
LC:
Clássicos em Choro - Altamiro Carrilho
V:
Aja - Steely Dan