Percussão soberana

 

“A percussão é soberana
na nossa história. Quis abordar isso partindo do ponto de vista de sua complexidade, coisa que nunca foi estudada na Bahia”
Letieres Leite

Por Doris Miranda
Fotos de Florian Boccia

Maestro Letieres Leite e sua Orkestra Rumpilezz tiraram os tambores afrobaianos
da cozinha e os colocaram na sala de estar


O maestro Letieres Leite, 51 anos, concebeu o que parecia impossível. Uma orkestra, assim mesmo, com k, como no original grego, que mescla a força seminal da música de matriz africana com a tradição do jazz e do erudito contemporâneos. Numa composição de sopro e percussão, misturou Bahia com New Orleans, candomblé com big band, orixás com ícones do jazz. O resultado é único, intenso, refinado e talvez o que há de mais inovador na música instrumental do país.
Duvida? Experimente se deixar levar pelo poder dos atabaques, surdos, timbaus, caixa, agogô, pandeiro e caxixi, que se unem a trompetes, trombones, saxes (alto, tenor e barítono, uma família completa) e tuba. Impossível não ser tragado pela vibração que emana da Orkestra Rumpilezz, especialmente se for em apresentação ao vivo. Aí, a conversa é outra, o público vibra em uníssono numa espécie de transe de euforia, difícil de ser contido. “Sinto nos shows que as pessoas percebem sua ancestralidade. Em todos os lugares em que a gente toca, as pessoas ficam curiosas”, confirma Letieres.
Pois é, falar sobre a Rumpilezz pressupõe referência imediata à consciência ancestral da negritude. Por mais que demonstre referências europeias em sua formação musical, o maestro Letieres, que estudou por seis anos no Konservatorium Franz Schubert, em Viena, Áustria, não deixa ninguém esquecer sua proposta de valorizar a riqueza da música sacra que se origina no candomblé. Não à toa, a Orkestra tem alabês, os encarregados do instrumental no terreiro, em sua linha de frente, que se apresentam mesclados a percussionistas de levada, como ele batizou os companheiros.
“A Rumpilezz surgiu de uma ideia que venho alinhavando há anos, porque estava engasgado para dizer a todo mundo que nosso diferencial é a percussão. Por isso, fiz questão de dar uma dignidade intencional aos percussionistas da Orkestra”, diz o maestro, que passou 13 anos de sua carreira tocando com Ivete Sangalo, para quem também atuou como arranjador. No Carnaval de 2011, porém, resolveu seguir somente com sua orquestra. “Ivete sempre foi muito legal e compreensiva, mas a agenda começou a ficar insustentável para mim, as datas se chocavam”, explica.
A decisão já estava tomada porque futuro é o que não falta à Orkestra Rumpilezz. Afinal, a big band, formada por 19 músicos (a crème de la crème do instrumental baiano), foi contemplada com quatro grandes editais de circulação no Brasil: o Natura Musical, o Conexão Vivo, o Itaú Rumos e o Programa Petrobras Cultural. Isso sem falar nos prêmios da Música Brasileira 2010, como revelação e grupo instrumental; e Bravo! 2010 de melhor álbum popular, o Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz (Biscoito Fino/2009), que apresenta composições originais e até um tema instrumental de Ed Motta.
É muita coisa, principalmente quando se percebe o que há por trás da música proposta pelo grupo, criado em 2006. O que a Rumpilezz (cujo nome consiste numa fusão dos três atabaques do candomblé, Rum, Pi e Lé, com o z dobrado do jazz) quer é tirar a percussão afro-baiana da cozinha e trazê-la para a sala de estar, com toda a pompa necessária. Tanto as composições como os arranjos são concebidos a partir das claves e desenhos rítmicos do universo percussivo baiano com inspiração em grandes agremiações percussivas como Ilê Aiyê, Olodum e grupos de samba do Recôncavo.
Ou seja, a ideia é deixar o preconceito de lado quando se fala em batuque. “Como arranjador de vários artistas na Bahia (Olodum, Daniela Mercury, Timbalada e Cheiro de Amor, entre eles), para mim a questão rítmica sempre foi uma preocupação. A matéria-prima na Bahia é a mesma para o axé e o pagode, por exemplo. Só que o acabamento é diferente”, diz Letieres. “Na Rumpilezz, eu preferi procurar algo a partir do universo percussivo baiano. Tudo vem do candomblé, de uma maneira ou de outra. Nós somos formados de várias nações e essa mistura criou um grupo rítmico extremamente original. A mistura feita no Brasil é única”, completa Leite, cujo trabalho se remete ao do grande maestro pernambucano Moacir Santos (1926-2006). Por isso, os percussionistas da Orkestra tocam numa lógica inversa: vestem roupa de gala e estão na linha de frente do palco, enquanto os instrumentos de sopro, de tradição ‘branca’, são tocados por músicos em roupas informais, posicionados a uma certa distância do público. Não tem nada de racismo às avessas, garante o maestro. É só justiça sendo feita.
“A percussão é soberana na nossa história. Quis abordar isso partindo do ponto de vista de sua complexidade, coisa que nunca foi estudada na Bahia. A Orkestra Rumpilezz é somente a ponta do iceberg. Meu projeto tem a ver com educação, porque não acredito na separação formal entre a música erudita e a popular”, explica Letieres, que planeja projetos afluentes à orquestra, como a Rumpilezz de Saia, formada por mulheres, e Rumpilezzinho, voltada à formação infantil.
Ele não deixa, porém, de tentar outras possibilidades. Quando a cantora americana Beyoncé esteve em Salvador, Letieres lhe entregou um disco da Rumpilezz. “Me disseram que ela tem a mente aberta para vários gêneros musicais”, justifica. Em setembro, porém, talvez tenha tido reconhecimento ímpar. Foi chamado por Roberto Medina para se apresentar no Rock in Rio 4. Detalhe: nunca tinha havido nenhuma atração instrumental antes no festival. “Nós temos uma veia rock também. Gosto muito do som dos anos 70”, garante Letieres. Desse aí ninguém há de duvidar.

Bate-papo com Letieres Leite


Bequadro– Você acha que tem espaço para preconceito musical na Bahia, como se vê em relação ao pagode baiano?

Letieres Leite- O pagode baiano é valioso, sim, sua percussão é maravilhosa. Temos que ter muito cuidado ao falar mal do pagode porque, hoje, é a única forma de distribuição de renda na Bahia. O negro não tinha acesso a instrumentos, não podia formar suas próprias bandas e foi o pagode que permitiu isso. Não posso ficar contra um movimento que gera distribuição de renda, que faz o cara ganhar dinheiro, botar comida na mesa, construir sua casa. Nesse caso, a música salva, ela transforma as pessoas.

B– E as letras, maestro? Hoje em dia, quase todas do pagode são focadas em baixaria...
LL – A baixaria tem a ver com os meios de produção, que são responsáveis por disseminar isso. O menino começa a tocar com 9 anos, começa a ter possibilidade e, claro, sai da escola. Como é que um cara desse pode ter apuro estético? Ele não foi para a faculdade como os inventores da Bossa Nova e do Tropicalismo, o nível de formação é outro.

B– Você passou grande parte da vida tocando com artistas da axé music. Viveu disso. Por que se desligou?
LL- Consegui coisas maravilhosas tocando para a indústria da axé music, mantive minha família com dignidade graças a isso. Mas também entendi, na prática, como a percussão define tudo, percebi que é ela que guia o cantor. Aprendi que os protagonistas da nossa história não são os cantores ou compositores: são os percussionistas.

B– Existe racismo na música baiana?
LL- Claro que existe racismo na música baiana, mas isso não é conversado, é uma coisa velada. A Bahia se vende como negra, mas isso é só folclore, estética. Os meios de produção são brancos. A elite branca descobriu cedo que a percussão dá dinheiro e começou a explorar isso. Mas, essas pessoas não têm compromisso nenhum com a singularidade da cultura baiana.

B– O primeiro álbum da Orkestra foi gravado na sala principal do Teatro Castro Alves e mixado no lendário estúdio Legacy, em Nova York, por Joe Ferla, que já trabalhou com Miles Davis, Herbie Hancock e John Mayer. Como foi isso?
LL- Um amigo botou o disco para tocar, o Joe passou por perto e perguntou o que era. Ele achou que fosse um grupo afro-cubano, depois pensou que fosse algo da Nigéria. Esse amigo deu uma cópia para ele e uma semana depois recebi o convite para fazer a mixagem. Ele conseguiu manter tudo sem a interferência de efeitos, e o resultado final ficou bem fiel ao que imaginávamos. Foi como um conto da Cinderela.

B– Como você, que ficou anos preso à indústria da axé music, vê a música alternativa feita na Bahia?
LL– A música baiana é interessante, sim, temos artistas muito bons. Só precisamos de meios para desaguar isso. A música alternativa, que não gera um grande negócio, não dá um grande retorno, sempre existiu. Mas nos últimos quatro anos está havendo o surgimento de uma cena consistente em Salvador que vai da sonoridade da Rumpilezz ao rock, a exemplo de grupos como Cascadura e Retrofoguetes. Ainda está um pouco tímida, mas a tendência é crescer. Acho que é natural haver um desgaste no universo da axé music.



Rumpilezz faixa a faixa

1- A Grande Mãe - “Esta é a musica de abertura e encerramento dos nossos concertos, executada a partir do toque vassi (usado para chamar divindades de acordo com batida do atabaque Rum).”

2- Anunciação - “Dedicada ao grande mestre da bateria e percussão Antonio Ferreira da Anunciação, um dos pioneiros no encontro da musica da Bahia com o jazz.”

3- Aláfia - “Música que celebra a paz, a positividade, os caminhos abertos; principais significados da palavra aláfia em iorubá, quando num resultado do jogo de búzios, o ifá.”

4-Floresta Azul - “Tema inspirado numa cantiga a Odé, na tradição afro-brasileira, em aguerê, ritmo cadenciado para Oxóssi. Na composição, as variações de rum deram a rítmica para a maioria das melodias.”

5- Taboão - “Samba-reggae em homenagem ao grupo Olodum, que divulgou o ritmo para todo o mundo.”

6- Balendoah - “Com adaptação e arranjo, a música de Ed Motta foi traduzida para o estilo Rumpilezz.”

7 - Adupé Fafá - “Composta em homenagem ao nosso saudoso músico da Orkestra, Fabrício Scaldaferri (percussionista morto em 2007 devido a uma infecção generalizada).”

8 - O Samba Nasceu na Bahia-
“A composição reúne as diversas formas de samba tocados na Bahia: o samba afro do Ilê Aiyê, samba duro, kabila de Angola e chula do Recôncavo baiano.”

9- Temporal – “Primeira composição feita para a Orkestra. Baseada no ritmo ilú (toque para Iansã nas cerimônias da nação Ketu). A música tem ainda, em uma de suas partes, o ritmo ijexá.”

Rumpilezz - Alafia

Rumpilezz - Floresta Azul

Rumpilezz Osambanasceuna Bahia

“A percussão é soberana na nossa história. Quis abordar isso partindo do ponto de vista de sua complexidade, coisa que nunca foi estudada na Bahia” Letieres Leite

Indicações sonoras
de Letieres:

Ymira Tayra Ypi - Taiguara
Matita Perê – Tom Jobim
Kind of Blue – Miles Davis