A construção do afro hip hop

 

“A Blackitude e seu
Afro Hip Hop também enfrentam esse império que cultua reis e rainhas disso e daquilo. Batalha para que também a divergência suba a ladeira dos contentes”

Por Nelson Maca
Fotos de Fernando Gomes

Coletivo Blackitude se firma como um dos maiores polos divulgadores
da cultura black na Bahia


Não é fácil encarar a ditadura cultural da Bahia. Aos olhos dos remanescentes coronéis que a legitimam, o hip hop deve aparentar um baianinho com defeito de fabricação. Se, para o Brasil, a cultura hip hop do estado se revela um engenho altamente produtivo, aqui, habita a dissonância por não reproduzir a baianidade que submerge as diferenças. Submersão não surpreendente na terra que essencializa o riso, a cordialidade e a sensualidade como tradição que interessa. Os grafiteiros Peace e Limpo, parceiros da Blackitude, dizem com seu humor arisco que “somos o subsolo do underground”. Mas, fazer ou não as malas, precisa deixar de ser uma questão de sobrevivência!
Contornei a rota da submissão ao coronelismo cultural na tentativa de fundir meu ativismo no movimento negro com minha fruição estética do hip hop. Na busca dessa simbiose, articulei o coletivo Blackitude: vozes negras da Bahia, aglutinação estabelecida na encruzilhada que fundamenta minha crença em ‘blacks com atitude’ que invistam na construção do Afro Hip Hop. Conceito já utilizado pelo MC Juno dos grupos lendários Erê Jitolú e Quilombo Vivo.


“O trajeto da ‘negralização’ atinge também grafiteiros, dançarinos e DJs, fazendo circular sonoridades, remixes, percussões, scratches e batidas que aproveitam elementos da música negra”


São mais de dez anos investindo na possibilidade de independência do rap, do break, do DJ e do grafite. O diálogo dessas inovações com a herança africana mediada pelo sampler remixa as culturas da Bahia preta. Ver nossas singularidades coladas às linguagens mundializadas pelo hip hop da América Negra do Norte é estratégico na construção e promoção de nosso estilo. Já existe uma trilha de africanidades no hip hop baiano a apontar caminhos. Há 17 anos, a Erê Jitolú antecipava traços que ilustram a construção do Afro Hip Hop que nos interessa. De formação inovadora, somando banda e DJ, a Erê esbanjava identidade preta nas rimas e arranjos. De sua cisão surgiram Quilombo Vivo e Opanijé. A Quilombo definiu seu estilo em torno do discurso engajado e sonoridades surgidas dos loopings, timbres, células rítmicas, citações e colagens de canções de blocos afros, reggae e outras expressões musicais negras locais.
Promessa do rap baiano, a Opanijé pode promover um avanço estético no rap nacional. Sobre bases rítmicas e religiosas africanas incorporadas às amplas possibilidades musicais do rap, estabelece uma poética que aproveita narrativas e simbologias do candomblé em complementaridade com motivos e linguagens militantes, além dos clichês do estilo. Cantor do Opanijé, Lázaro Erê espera mais influência da estética africana no hip hop. Aponta no grupo a forma encontrada de “traçar uma encruzilhada entre as experiências musicais da diáspora, utilizando o rap como base”. Ele pensa num sentido amplo, não apenas na religiosidade.
Outro exemplo de negritude reelaborada é o RBF – Rapaziada da Baixa Fria, presença constante na Blackitude. O grupo traz, desde sua fundação, em 1998, um diálogo direto com o continente africano. Reação Sankofa, lançado em 2009, incorpora no título o símbolo adinkra de Gana, representando a ideia de que a volta ao passado formata o presente e projeta o futuro. Além da forte base negra local, o RBF se mostra atento à diversidade da música africana e ao discurso político pan-africanista.

África crítica
A Blackitude se fundamenta na possibilidade de construção de uma África crítica. “Estamos nos preparando para que as músicas, grafites e palavras possam nos ajudar a construir uma ‘Nova África’ em diálogo com a atualidade”, afirma Robson Véio, uma das vozes do nosso coletivo. Ele desdobra o tema, pois há muito se pergunta qual o sentido africano da economia, da política e da família a se considerar. “Sempre parava na dicotomia das respostas. Só achávamos uma africanidade mítica e monolítica ou uma moderna e destituída de tradição”, diz.
O hip hop se apresenta como lugar privilegiado para a construção de expressões artísticas que superem a dicotomia apontada por Robson. Sobre o rap, diz que “passado, presente e futuro estão intrincados em suas batidas modernas e na sua tradicional fala Griot”. Com Finho, seu parceiro no grupo Arterisco, ele tem perseguido o conceito de africanidade. “O fruto almejado de nossas pesquisas é entender o que é ser negro”, completa.
O Rapper Danganja, um dos artistas do hip hop soteropolitano com maior entrada em outros estados hoje, diz se identificar com essa busca de africanidade que identifica a Blackitude: “Sou parceiro da Blackitude. Acho que esse conceito é bastante importante e mostra que podemos levar nossa consciência negra pra diversas atividades”. Para o artista, não somente a música pode trazer essa negritude, mas ela pode estar também expressa nas paredes com o grafite, no break dance com os B.Boys, com os percussionistas e outras manifestações.
O trajeto da ‘negralização’ atinge também grafiteiros, dançarinos e DJs, fazendo circular sonoridades, remixes, percussões, scratches e batidas que aproveitam elementos da música negra. Assim acontece com as performances e produções do DJ Bandido, que mergulhou no Afro Hip Hop desde o início de sua carreira no Quilombo Vivo e trouxe para o rap baiano o luxuoso auxílio do Ilê Aiyê, Gerônimo, Edson Gomes...
O grafiteiro Lee27, também parceiro, é pioneiro no tratamento de linhas, cores e simbologias da negritude, de forma geral, e, mais pontualmente, do candomblé. Seu traço individual inequívoco transita pela iconografia afro-baiana espontaneamente. Mas não se limita a influências específicas, porque gosta de subverter temas e identidades diversas. Além de estampar sua negritude, Lee27 interfere sobre elementos estranhos. Empretece-os. Já o B.Boy Ananias, que comanda semanalmente a roda de break da Praça da Sé, absorve técnicas e movimentos da capoeira, da dança afro e outras danças populares. Ele afirma que, ao lado da B.Girl Tina, procura levar para a Blackitude as performances que realiza no Independente de Rua, grupo criado há nove anos.

Expansão
Outros grupos e artistas aliados da Blackitude têm contribuído para o estabelecimento e expansão do hip hop baiano. Opanijé e Versu2 e o rapper Daganja são exemplos desta difusão no Brasil. Os artistas começam a sentir o gosto do reconhecimento fora de sua aldeia. Rangel Santana, da Versu2, fala com emoção sobre extrapolar fronteiras. “No coração, levamos sempre a emoção de estar vivendo cada momento como único”. Cauteloso, diz que não pode desfocar a responsabilidade que o reconhecimento traz, não somente para seu grupo, mas para a cena local. “Na mente, a convicção de que esta oportunidade de representar nossa cidade e nosso estado é algo muito sério e não vamos resumi-la apenas aos palcos”.
O fato do Opanijé estar finalizando seu primeiro disco abre possibilidades concretas de apresentações em outros estados. Segundo Lázaro, “a receptividade tem sido muito boa. A gente sente nas pessoas a necessidade de conhecer o rap feito na Bahia”. Mais uma vez, Rangel lembra que o aprendizado está no começo, que tudo é muito novo para conclusões. “Não temos referências locais sobre esse desbravamento. O rap ainda é uma criança no Brasil, e na Bahia parece ainda engatinhar, ensaiando os primeiros passos do profissionalismo”, finaliza.

Sarau Bem Black
Eu diria que já demos os primeiros passos. Toda quarta-feira, no Sarau Bem Black, presencio o sólido crescimento do rap baiano. Nos reunimos no Sankofa African Bar, Pelourinho, há dois anos. Ao eleger frequência e continuidade como princípios, o sarau virou ponto de encontro de artistas, produtores, ativistas, pesquisadores, imprensa alternativa e até empreendedores. A Blackitude sempre promoveu a poesia. No entanto, sem perder contato com as linguagens do hip hop, no sarau ela ocupa o centro. Henrique Cunha (Ufba), um dos primeiros acadêmicos a refletir sobre o Sarau Bem Black, percebeu equilíbrio entre minha poesia e o rap do Opanijé, que exemplificaria “a emergência de uma literatura-terreiro na cena baiana”.
Henrique lembra que os terreiros, “historicamente marginalizados, sempre impregnaram com seus saberes e sabores as veias culturais da cidade de Salvador e de diversas cidades do Brasil, já que eles não se restringem aos ritos de celebração aos orixás, mas legam às malhas urbanas suas cosmogonias, teologias e éticas”. A literatura absorve “as experiências de uma militância artística do movimento negro e de uma literatura afro-brasileira”. Ele não entende a ‘literatura-terreiro’ como simplesmente “uma literatura sobre as religiões de matriz africana ou que etnograficamente a utilizam como mote, e sim aquela ancorada na filosofia da ancestralidade”.
Os batuques vazados desses emblemáticos terreiros e espalhados pela cidade ajudam a formatar a obra do rapper Daganja. Mesmo sem referências diretas do candomblé ou discurso militante, sua música nasce no embalo das sonoridades que embalaram sua infância e adolescência nas ruas da Bahia. Ele afirma que foi a percussão que o levou para a música. “Tocava samba-reggae. Tocava em várias bandinhas da quebrada, depois parti para o samba-duro. Sempre me identifiquei com a música baiana. O que soa em minha cidade é o que eu cresci escutando, são minhas referências”.
O convívio entre poetas, ativistas da negritude e jovens do hip hop está sendo fundamental na comunicação de ideias e intercâmbio de técnicas e ações. Nosso sarau funciona como plataforma de lançamento de músicas, CDs, livros, camisetas. O diálogo com tudo que deriva da literatura divergente e do hip hop nos interessa. Festas, palestras e cursos são realizados ou anunciados; há venda de ingressos; inscrições para eventos; presença de escritores, artistas e ativistas; além das parcerias pontuais, da interação promovida pelos ‘microfones abertos’ e dos recitais e pocket-shows em dias de lançamentos ou edições comemorativas.
A orientação étnica determina a estrutura do Sarau Bem Black, que começa com um forte discurso político ao som do atabaque, seguido de um rap de saudação a Exu. Logo após, poetas infantis declamam no momento chamado Erês e Trapezungas, preparando o ‘terreiro’ para os poetas residentes e os da plateia. Permeado de simbolismos e palavras de ordem, o sarau conta com muitos integrantes da cultura hip hop. Acho instigante a argumentação sobre nosso pertencimento à ‘literatura-terreiro’. No entanto, advirto que ela exige elaboração de um culto ao milagroso ‘sampler’.
Comparo o hip hop baiano àquela serpente de várias cabeças crescida no subterrâneo, como falou Malcolm X. Lá, adquiriu corpo, consciência e estilo próprio. Agora, está pronto para injetar sangue novo na cena nacional. A nota desanimadora é a Bahia continuar refratária a ele. A Blackitude e seu Afro Hip Hop também enfrentam esse império que cultua reis e rainhas disso e daquilo. Batalha para que também a divergência suba a ladeira dos contentes. O que nos tem sobrado da Roma Negra são os leões devoradores de sonhos em desalinho. Mas insistimos em superar o ‘subsolo do underground’. Os grafiteiros Peace e Limpo colhem hoje, na Europa, os frutos que a Bahia lhes nega. Mas não, definitivamente, não, fazer as malas não pode mais ser nossa única entrada!

A Cura Opanijé Afrogueto - Vai Rolar Uma Treta Daganja - Faça aconteçer / Tem que ser guerreiro

Discografia / Rap baiano

Genocídio - Elemento X
Reação Sankofa – RBF
A Vida nos Ensina – Testemunhaz
Exijo Respeito – Afrogueto
Por Todos os Meio Necessário - Júri Racional
Primeira Passagem - In.vés
Entre Versos e Prosas - Daganja
Sei Lá! - Robson Véio & Mauro Telefunksoul
Lute - Léo Souza
Respirando Arte - Nouve
Suspeito 1,2 MCs