Parque de diversões musicais

 

Por Ronei Jorge
Foto de Sora Maia

Trio instrumental baiano incorpora diversos estilos a sua surf music envenenada

A música do trio instrumental Retrofoguetes, formado por CH (baixo), Rex (bateria) e Morotó (guitarra), parece brincadeira. Também pudera, as possibilidades dos caras são muitas: tango, mambo, chá-chá-chá, bolero, bossa nova, frevo, rockabilly tradicional… Tudo com uma escolha de timbres e instrumentos bem minuciosa. No elogiado segundo álbum da banda, Cha Cha Cha, ouve-se contrabaixo acústico, guitarra baiana, acordeom, ukelele e até mesmo sopros e percussão, como foi no caso da participação do maestro Letieres Leite e músicos da Orkestra Rumpilezz na música Maldito Mambo!. Pois é, no parque não se vive só de roda-gigante. “É claro que no começo focamos mais na surf music instrumental dos anos 60. Isso foi importante pra darmos um referencial para o público, mas, já no primeiro disco, gravamos polca, valsa, bolero e música circense. Com o tempo, o som foi ficando cada vez mais aberto a novas experiências. No Cha Cha Cha, gravamos tango, tarantela, mambo e brincamos pela primeira vez com o funk tradicional, inspirados nos action grooves dos filmes policiais dos 70”, explica Rex.
Filmes, quadrinhos, tevê, ou seja, o bom e velho caldeirão pop é ponto de partida para os temas - todos instrumentais. Tudo é construído a partir de ideias nada convencionais: de perseguições ao seu bicho de estimação preferido (A Fantástica Fuga de Magnólia Pussicat), literatura sci fi (O Falso Turco) e até ritmos obsessivos de bateria (O Avanço da Robótica). Rex fala mais desse casamento com a cultura pop: “Sempre tratamos nossos temas como trilhas sonoras de filmes que só existem nas nossas cabeças. Crescemos cercados de cultura pop, quadrinhos, filmes e seriados de tevê, e transformamos tudo isso em ingredientes para o nosso trabalho”.
E a receita do bolo continua. “Compositores como Lalo Schifrin, Henry Mancini, John Barry e os italianos Enio Morricone, Bruno Nicolai e Piero Piccione definiram o que chamamos de Spy Jazz e Crime Jazz que, sem dúvida, são nossas maiores influências”, completa o baterista.
A relação com o cinema fica mais explícita com o novo projeto chamado Ultra Retro Twist, onde o foco são temas de filmes e seriados de espionagem dos anos 60. A pesquisa para o Ultra Retro Twist serve de laboratório para o próximo disco. “Temos experimentado algumas novas possibilidades em nossa música”, diz CH.
Parte dessa liberdade se dá por conta do senso de humor extremo do trio. Não um senso de humor qualquer, mas a típica ‘mulequeira baiana’. Desde os Dead Bilies, banda seminal de Salvador da qual Rex e Morotó fizeram parte, que o palco pega fogo com performances que vão da luxúria ao deboche em questão de segundos.


“Sempre tratamos nossos temas como trilhas sonoras de filmes que só existem nas nossas cabeças”


Essa farra dos Retrofoguetes fica ainda mais explícita no Carnaval com o projeto Retrofolia em que temas clássicos da folia são executados equilibrando reverência e safadeza, exatamente como eram nos antigos Carnavais. “Eventualmente, tocávamos alguns temas nos shows e sentíamos que o público adorava. Em um certo momento, creio que Rex desafiou Morotó a aprender a tocar guitarra baiana e resolvemos comprar a pilha e preparar um show”, conta CH. “De lá para cá, já foram muitas edições, dois trios elétricos, prêmios, participações em tributos, palestras ministradas, shows ao lado de Armandinho, Aroldo Macêdo, Luiz Caldas, que são os caras que ouvimos na infância e adolescência. Enfim, é um projeto que nos dá grande orgulho”, complete o baixista.
Mas, como explica Rex, essa vontade não veio do nada, essas referências vinham de outros tempos: “Ouvíamos os discos dos caras e da Cor do Som e já entendíamos que aquilo era muito foda. Eu sabia que Morotó tinha dado seus primeiros passos numa guitarra baiana e, vez ou outra, tocávamos de brincadeira Rock de Caicó ou Taiane (Tio Elétrico Armandinho Dodô e Osmar). Aí, perguntei se topava encarar o instrumento pra valer para montar um projeto para os Retrofoguetes tocarem os clássicos instrumentais do Dodô e Osmar”. Essa ‘folia’ acabou dando tanto sucesso que o trio, com mais alguns músicos, subiu no trio elétrico no circuito carnavalesco Barra/Ondina.
Quando ouve a pergunta se em melodias tão assobiáveis não cabiam letras, CH brinca revelando que muitas delas ganham letras no ensaio com o objetivo de tirar um sarro da cara do outro. Mas essa seria uma carta na manga de uma banda instrumental que tem um público tão grande? Rex confirma o faro cancioneiro do trio: “Acho que o diferencial é que nosso som é realmente mais melódico do que a maioria das bandas instrumentais. Isso é natural, considerando as nossas influências. Morotó sempre diz que é muito mais difícil emocionar ou dizer algo somente com a música, sem o texto. Acho que temos esse mérito também”.

Retrofoguetes Venus Cassino Retrofoguetes - surfomatic

Eles não ficam sem ouvir:
Beat at Cinecittà - Coletânea de trilhas sonoras
Telephone - Ron Carter & Jim Hall
Swingin’ Dixie! - All Hirt