Sistema de som

 

Por Ronei Jorge
Fotos de Florian Boccia

Da Jamaica para a Bahia, coletivo MiniStereo Público divulga música de soundsystem feita na rua

Som mecânico na rua, gente dançando livremente, muito reggae, dub e sons jamaicanos. Climão de festa. Com exceção de alguns detalhes, poderia estar falando daquelas antigas lavagens ou festas de largo, enfim, pequenas folias que acontecem em bairros e ruelas. Mas não é nada disso, ou quase. A ideia jamaicana de levar pra rua equipamentos de som com Djs nasceu na década de 50 e existe até hoje. Quem faz a festa funcionar são os chamados soundsystem, grandes equipamentos de som com uma equipe formada geralmente por Djs, MCs e técnicos de áudio.
Da Jamaica para Salvador, a identificação foi um pulo. Afinal, com diz o MC Fael: “O povo daqui de Salvador já é acostumado com essa cultura dos carrinhos de café, das barracas de cravinho, do próprio Carnaval”. Fael se refere ao som que faz parte da rua, dos lugares em que você não passa imune ao som presente em todos os cantos. “Cada barraca de bebida no Carnaval coloca um som diferente, seu próprio som, o arrocha, o reggae, o pagode e o som eletrônico”, completa DFrance.
MC Fael, DFrance, DJ Raiz e o seletor e técnico Regivan são os quatro cavaleiros do soundsystem soteropolitano, os homens à frente do MiniStereo Público. A equipe de som perambulante vai a fundo na raiz da onda jamaicana e leva seus compactos de 12 polegadas debaixo do braço, seja em casas de shows, ou em espaços públicos, tocando dub, raggamuffin e o reggae roots. E, claro, provocando a dança dos presentes.
“O microfone é aberto, o cara na rua pode pegar e fazer o baile, mas se tiver ruim a gente tira. Mas já tem uma galera que sabe como é que rola, uma galera do rap que cola, que já está envolvida”, explica DFrance.
A verdade é que, num esquema tipo soundsystem, conceitos de pirataria, direito autoral e gravações hi-tech voam pelos ares. “Na Jamaica, o cara improvisava uma coisa em cima da base de outro cara e fazia um hit, geralmente, até provocando o concorrente, que dá a resposta”, diz Fael.
Esse espírito do instantâneo, do improviso e do uso da baixa tecnologia gerou consequências estéticas que permanecem até hoje em alguns gêneros jamaicanos. “O dancehall é o gênero do auge do soundsystem na década de 80 e utilizou o equipamento eletrônico/digital barato que vem para baixar os custos de produção. Tanto que os primeiros dancehall foram feitos em Casiotone (teclados baratos, quase de brinquedo da Casio)”, relembra Fael.
Porém, ter sua própria aparelhagem custou caro para o MiniStereo, o que não foi empecilho para que o grupo desejasse a busca de um som próprio e um set de som clássico como os que os jamaicanos tinham. “Regivan é o nosso seletor, nosso técnico, ele que dá a timbragem, faz o som sair daquele jeito específico”, explica Fael.
Deu certo, pois o que se ouve nas festas do MiniStereo é uma multiplicidade de estilos vindos da Jamaica, um turbilhão de ritmos baseados na pesquisa e compra de discos. “Eu nem sei quantos compactos eu tenho, mas sempre estou comprando, pesquisando”, diz DFrance, apontando para as caixas lotadas de vinis de 12 polegadas. A proposta do MiniStereo Público de levar cultura e música para a rua se estende em oficinas em que técnicas de áudio, montagem de soundsystem e oficinas com grafite são ministradas em bate-papos com as comunidades de Salvador.

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